terça-feira, 31 de janeiro de 2012

É muito chichê falar de amor - Parte II

-II-

Finalmente eu tomo coragem e levanto. A casa está silenciosa. O mundo todo parece estranho e silencioso.
O silêncio faz uma pressão nos meus ouvidos. Fecho as janelas abertas da sala e coloco Chico Buarque. Ele canta “Roda Viva” e parece estar conversando comigo.
Gol de algum time, fogos e a água morna nos meus cabelos. Ao longe, Chico canta agora “Cotidiano”. Cultivo a rotina que não permite me acostumar com a presença dele.
Eu choro de novo (ou será que ainda não havia parado de chorar?). Choro. Lembro e esqueço os motivos e continuo chorando.
Daria o mundo para tê-lo ao meu lado. Sonhos não pagam promessas e não há promessa no mundo que mude a realidade. Brigar com a vida não vai mudar as coisas.
Desligo o chuveiro. Bermuda e camiseta da Janis. A vida continua. Eu sinto o cheiro dele, mas só pode ser mentira.
Sento no sofá. Agora o Chico balbucia uma música que não conheço. Meus olhos ficam marejados, dessa vez porque não conhecia aquela música. Como é duro não saber de tudo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

É muito chichê falar de amor - Parte I

-I-

Acordei. A manhã (ou a tarde) tinha um gosto ocre de bebida e cigarros baratos.
Abri os olhos. Sem sol. Onde estou? As janelas cerradas me levam de volta à realidade e ao meu quarto.
Sentei. O mundo parecia meio fora do lugar. Ou eu que estaria fora do ritmo do mundo? A dor de cabeça também me levava de volta à realidade. Nas estantes, meus livros favoritos; nas paredes o branco que sempre me oprimia.
Onde estive ontem? Na Augusta, na 13 de Maio, no Inferno.
Já deve ser tarde, pensei. Ouço o jogo de futebol. Domingo a tarde, sábado de boemia. Vida bandida.
Procuro na bolsa e encontro o cigarro barato, mas não era isso que estava procurando. Abro a carteira, encontro a foto dele e deito de novo.
Durmo? Fecho os olhos. Aperto a foto. Penso nele. E choro.
Meu estômago está embrulhado, acho que o sapato de salto alto me rendeu algumas bolhas nos pés. Mas não me importa. Não me importam as bolhas, os livros, o quarto branco e as janelas fechadas. O que me importava era aquela foto junto do meu peito. No fundo, aquela foto que me fazia voltar à realidade.
E continuei chorando. Porque chorar faz bem. Chorar sozinha faz bem. Ninguém precisava saber sobre meus livros preferidos, o cigarro na bolsa e sobre minhas lágrimas.
Olhei a foto e fiz as contas do fuso-horário. Já era noite lá. Onde ele estaria? Haveria uma foto minha para ele apertar? Haveria resquícios dos nossos sentimentos para que ele fizesse planos a noite?
Fiz as contas: preciso tirar cinco na prova de amanhã, minha conta vai ficar negativa esse mês, daqui algumas horas já é segunda e quando será que ele volta?
Preciso levantar. Preciso esquecer. Eu preciso reagir. Mas dentro de mim há um oceano revolto. Dentro de mim há um oceano de distância.
As lágrimas me queimavam, aliviavam, me desesperavam ainda mais. A ressaca, a foto, a tristeza... tudo tornava ainda mais real o fato: ele não está aqui.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando a gente decide o que vai ser?

Eu assisti a uma palestra do artista plástico Antonio Peticov e ele falou amplamente sobre as habilidades inerentes à cada homem.
Chamou essas habilidades de "dons" e apontou que quando os mesmos não são exercidos, eles deixam de fazer bem e passam a prejudicar quem os possui.
Isso me fez pensar que a gente pode escolher ser muitas coisas, mas é impossível fugir daquilo que você realmente é.
Desde pequena eu desejei ser muitas coisas: primeiro sonhei em ser jardineira. Depois quis ser médica. Fui fazer Gestão Empresarial, Letras e Logística. E por fim, escolhi fazer (e terminar) Direito.
Mas lá no fundo, onde escondem-se as tais habilidades-dons, estava o que eu sempre fui. Não sei se posso dizer que minha habilidade de fato é a fotografia. Mas posso dizer, sem dúvidas, que minha habilidade é o sonho de registrar todos os momentos do mundo. Meu sonho é registrar todos os sonhos do mundo.
Essa foi a primeira foto que tirei com os primeiros olhares de fotógrafa. Meu avô havia acabado de falecer e nós dois passávamos tardes inteiras olhando para a cena da foto. Meu maior desejo naquele momento, era imortalizar as tardes na companhia do meu avô. Ai eu percebi a mágica da fotografia: e nunca mais quis parar.