segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

É muito chichê falar de amor - Parte I

-I-

Acordei. A manhã (ou a tarde) tinha um gosto ocre de bebida e cigarros baratos.
Abri os olhos. Sem sol. Onde estou? As janelas cerradas me levam de volta à realidade e ao meu quarto.
Sentei. O mundo parecia meio fora do lugar. Ou eu que estaria fora do ritmo do mundo? A dor de cabeça também me levava de volta à realidade. Nas estantes, meus livros favoritos; nas paredes o branco que sempre me oprimia.
Onde estive ontem? Na Augusta, na 13 de Maio, no Inferno.
Já deve ser tarde, pensei. Ouço o jogo de futebol. Domingo a tarde, sábado de boemia. Vida bandida.
Procuro na bolsa e encontro o cigarro barato, mas não era isso que estava procurando. Abro a carteira, encontro a foto dele e deito de novo.
Durmo? Fecho os olhos. Aperto a foto. Penso nele. E choro.
Meu estômago está embrulhado, acho que o sapato de salto alto me rendeu algumas bolhas nos pés. Mas não me importa. Não me importam as bolhas, os livros, o quarto branco e as janelas fechadas. O que me importava era aquela foto junto do meu peito. No fundo, aquela foto que me fazia voltar à realidade.
E continuei chorando. Porque chorar faz bem. Chorar sozinha faz bem. Ninguém precisava saber sobre meus livros preferidos, o cigarro na bolsa e sobre minhas lágrimas.
Olhei a foto e fiz as contas do fuso-horário. Já era noite lá. Onde ele estaria? Haveria uma foto minha para ele apertar? Haveria resquícios dos nossos sentimentos para que ele fizesse planos a noite?
Fiz as contas: preciso tirar cinco na prova de amanhã, minha conta vai ficar negativa esse mês, daqui algumas horas já é segunda e quando será que ele volta?
Preciso levantar. Preciso esquecer. Eu preciso reagir. Mas dentro de mim há um oceano revolto. Dentro de mim há um oceano de distância.
As lágrimas me queimavam, aliviavam, me desesperavam ainda mais. A ressaca, a foto, a tristeza... tudo tornava ainda mais real o fato: ele não está aqui.

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