Acordei. A manhã (tive certeza que era manhã) tinha um gosto doce de cigarro barato.
Abri os olhos. Sem sol. Meu quarto.
Sentei. O mundo está fora do lugar, tive certeza. Todos os dias são assim: uma hora eu me adapto ao ritmo; danço conforme a música; um dia as coisas farão sentido.
Procuro na bolsa e encontro um livro que me lembra que preciso estudar. Mas eu não estava procurando responsabilidades, estava procurando a foto dele. Abro a carteira, pego a foto dele e deito de novo.
Não durmo, não tenho sono. Fecho os olhos. Aperto a foto. Penso nele. E não choro. As lágrimas são pedidos desesperados de mudança e eu já não preciso mais mudar.
Meu estômago está embrulhado de fome. Vontade de devorar o mundo. Continuei com apetite, porque a vontade de devorar o mundo faz bem. E todo mundo deveria saber: meus apetites, minhas vontades, meus sorrisos.
Olhei a foto e fiz as contas do fuso-horário. Ainda não era noite lá. Acho que fiz as contas erradas, o horário de verão alterou o fuso-horário. Até isso muda, meu Deus.
Será que ele está bem? Haveria ainda sentimento para que ele lembrar de mim?
Fiz as contas: dois dias de folga, esse mês acho que sobra uns cinqüenta reais ... parei de contar o tempo para a volta dele.
Preciso levantar. Preciso prosseguir. Preciso viver. Há dentro de mim um oceano inteiro de distâncias e conformidade: ele não está aqui.

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